Surdez e Viajar Sozinho – Relato de Viagem

Começamos, com esse texto mais do que inspirador, uma nova categoria aqui no nosso blog. Onde abordaremos temas importantes relacionados a viagens. Essa parte, especificamente, terá o auxilio de todas as pessoas que queiram contar suas experiências e vivências em relação a viagens. (caso queira contribuir entre em contato conosco)

Esse primeiro texto não poderia ser mais especial. Paulo Sugai é um dos meus amigos mais próximos (me aturando a mais de 15 anos, quase um santo). Como você já percebeu pelo título desse texto, ele falará sobre como é viajar sozinho sendo surdo. Só quero registrar que esse texto me fez chorar e eu tenho muito, mais muito, orgulho de chamá-lo de meu amigo. Se quiser ser amigo dele também, veja esses outros posts dele na internet 😛 aquiaqui.

Obrigada, Linho!




Surdez e viajar sozinho

Escrito por Paulo Sugai

Uma das minhas amigas mais próximas me indagou acerca da possibilidade de escrever um texto sobre conciliar os medos de viajar sozinho ao exterior com a surdez, que pode ser vista como um impeditivo.

Pode, mas não é.

Claro que, com ela, algumas dificuldades nos acompanham, mas todas elas são passíveis de enfrentamento!

Viajar sozinho pela primeira vez, em si, é um ato de coragem: para nós, que passamos boa parte de nossas vidas viajando em grupo (com amigos, com famílias, com colegas de trabalho), viajar assim é algo que remete à solidão. O ser humano foi feito e criado para a convivência em sociedade e para o contato com outros seres humanos. Uma viagem desacompanhado é uma experiência única, que significa expansão da sua zona de conforto, pois envolve se virar praticamente sozinho.

Some-se a isso a ausência da audição e vocês podem ter uma pequena ideia de como o ato de coragem é multiplicado por mil. Ainda mais se a viagem for ao exterior!

Sempre digo que, na minha opinião, a surdez é a deficiência que mais exclui seus atingidos do restante do mundo, que é basicamente sonoro em sua essência. Somos afastados do convívio com a música, de grupos de amigos e até mesmo de encontros familiares que contém muita gente, porque simplesmente não conseguimos acompanhar o que está sendo dito.

Antes de avançarmos, uma pequena apresentação: sou surdo profundo bilateral congênito, usuário de aparelho auditivo no lado direito e usuário de implante coclear no lado esquerdo, oralizado e fluente em inglês.

A primeira vez que decidi viajar ao exterior sozinho foi em janeiro de 2015 (nessa época, usava aparelhos nos dois lados). Já tinha viajado várias vezes antes para fora do País, mas sempre acompanhado — com amigos e família. Em uma decisão impulsiva, decidi que encararia Seattle, Nova Iorque, Washington, Boston e Penn State de uma vez.

Surdez nos aeroportos

No início da viagem, a primeira dificuldade: em quase todos os aeroportos, os avisos são sonoros (outra prova da exclusão do surdo da sociedade) e tive que quintuplicar minha atenção aos painéis de aviso. Um dos meus maiores pavores é perder um voo por mudança de portão de última hora.

A segunda dificuldade: por mais que eu tivesse assinalado a opção de “deficiente auditivo” na compra das passagens aéreas, não tive nenhum suporte adicional da companhia aérea. E, acreditem, isso é bastante rotineiro. Em todas as minhas viagens a trabalho e a lazer, nunca recebi nenhum apoio nesse sentido. Tive que me virar em todas elas, embora, na maiorias das vezes, seja bem tranquilo.

Quando cheguei, no trajeto a Washington, na minha conexão na Cidade do México, encarei a terceira dificuldade: a barreira que surge através da comunicação entre línguas estrangeiras. Ao perguntar a um funcionário da Aeromexico o portão do voo internacional, entendi porra nenhuma do que ele disse.

Vejam bem: eu entendo o que as pessoas dizem unicamente pela leitura labial — os aparelhos servem como complemento. Falhei miseravelmente ao tentar fazer leitura labial de alguém falando em um espanhol na velocidade da luz. Felizmente, temos a comunicação gestual para tentar resolver essa questão e foi assim que consegui, com criatividade, superar essa barreira.

A experiência

Chegando no destino final, percebi uma vantagem de visitar uma cidade turística de primeiro mundo: ela costuma estar preparada para os turistas, de diferentes nacionalidades e condições. Por exemplo, o Franklin Delano Roosevelt Presidential Library and Museum não cobra entrada de pessoas com deficiência e ainda disponibiliza um intérprete ou tradutor para cada uma delas. A mesma coisa com o museu de Pearl Harbor, Havaí.

Lembro-me especialmente de uma experiência interessante. Em Washington, resolvi visitar a Gallaudet University, uma renomadíssima universidade exclusiva para surdos. No meio do caminho, após usar o metrô da cidade, acabei me perdendo. Pedi ajuda a uma policial que estava na esquina e ela, ao ver que eu usava aparelhos auditivos, se posicionou na minha frente (ou seja, na melhor posição possível para se fazer leitura labial) e explicou, com calma, o caminho que eu deveria tomar. Perguntou, ainda, se eu queria que ela anotasse em um papel.

Só aí você já vê a diferença de tratamento de lá para cá.

Os desafios

Outra situação a que estamos submetidos quando viajamos sozinhos é a de saúde. Se passarmos mal no hotel ou no meio da rua, como vamos resolver isso? Sempre contrato um seguro-saúde para viagens internacionais, mas não basta ter o seguro. Tem que ligar para acionar, falar com a equipe médica em outra língua, compreender o que é dito… Isso, sim, é um fator extremo de estresse para quem não ouve.

E em casos de roubos? Outro pavor que tenho. Sempre presto atenção nos lugares que tenho. Se eu vir algo suspeito, simplesmente vazo do local. Melhor prevenir do que remediar, certo? Imagina, você, um surdo, que não fala a língua do local, tendo que fazer registro policial e lidar com os termos técnicos da coisa toda.

Apesar de todos os contras acima elencados, sempre digo que viajar sozinho, sim, vale a pena. Independente do seu destino, é uma experiência que você leva consigo para sempre e, adicionalmente, o amadurecimento que se ganha com isso é surpreendente. No início desde ano, fui sozinho para Hong Kong encontrar minha família. Em um trajeto de quase 28h (Brasília > Guarulhos > Adis Abeba > Hong Kong), fiquei sozinho o tempo inteiro. Chegar na Etiópia foi algo que nunca esquecerei: mesmo que não tenha saído do Aeroporto Internacional Bole, presenciar um pouco da cultura etíope e de seu povo é incrível.

Viajar é uma das melhores coisas do mundo e se for com a família ou com um grupo de amigos, melhor ainda. Mas, sozinho, você acaba entrando em uma jornada de autoconhecimento e, em situações pelas quais você nunca passaria no seu dia a dia, acaba-se descobrindo a verdadeira força do seu eu interior.

 



2 comentários Adicione o seu
  1. Oi Aline,

    Muito legal essa sua iniciativa das narrativas, sabe que ajuda muito quem já viajou, os “perrengues” da língua
    e o interesse de alguns povos que gostam de ajudar os turistas, o que nem sempre ocorre.

    Parabéns.
    Alcir

    1. Obrigada Alcir! Se quiser contribuir também. Eu sei que você tem histórias incríveis de viagens 😀 Principalmente as de 30 horas de voo, hehe.
      Obrigada pelo apoio de sempre viu? sou muito feliz de tê-lo como meu amigo!

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